Crepúsculo e a dublagem ‘demonizada’ na Rede Globo

Crepúsculo: dublagem encomendada pela Rede Globo rendeu um turbilhão de críticas pelos fãs da saga

Por Fábio Cavalcante

Realmente, não dá para agradar todo mundo. Lidar com opiniões é algo complicadíssimo, ainda mais quando estamos lidando com um vasto universo de idéias, totalmente conflitantes umas com as outras. Enfim, o ser humano é um ‘bicho’ difícil e ponto final.

E no que se diz respeito aos filmes dublados, nossa! Como é difícil agradar os fãs de filmes, desenhos e outros blockbusters mundiais. Como já apresentamos em nosso primeiro artigo, muitos levantam a bandeira da ‘legendagem’, ou seja, pela exibição de filmes em idioma original com legendas (e às vezes, sem). Logo, temos a impressão que vivemos mesmo em um universo tomado por poliglotas. Enfim, é complicado.

Em relação ao filme Crepúsculo, o primeiro da saga baseada na obra homônima de Stephenie Meyers, vimos essa discussão “dublagem x legenda” se aflorar e tomar proporções megalômanas. Principalmente por conta da ‘redublagem’ que foi feita quando a Rede Globo de Televisão resolveu comprar os direitos da série. O problema surgiu daí.

Antes de mais nada, vamos considerar o seguinte. A primeira versão dublada foi feita pela Álamo, de São Paulo. No elenco principal de dublagem tivemos: Wendel BezerraEdward Cullen (Robert Pattinson); Luciana BaroliBella Swan (Kristen Stewart); Yuri ChesmanJacob Black (Taylor Lautner); Marcelo Campos – James (Cam Gigandet); Marcelo PissardiniCharlie Swan (Billy Burke), entre outros.

Pelas fontes que consultamos, este elenco assinou contrato para dublar apenas o filme para DVD e Blue-Ray. E só. Ou seja: para que o filme fosse levado à TV aberta, era necessário um novo procedimento jurídico/ trabalhista. Então, o que a Globo fez? Mandou redublar.

Assim, na versão feita pela Delart, sai Wendel Bezerra e entra Reinaldo Buzzoni (o Neo, de “Matrix”), dublando Edward Cullen. No lugar de Luciana Baroli, como Bella Swan, entra Flávia Saddy (Chloe, de “Smallville”). No restante, temos: Philipe Maia – Jacob Black; Ettore Zuim – James; Júlio Chaves – Charlie Swan. Ainda temos Guilherme Briggs (“Dr. Carlisle Cullen”), Mônica Rossi (“Esme Cullen”) e Guttemberg Barros (“Laurent”), entre outros. Agora vamos à luta!

Edward ou Eduardo?

Assisti às três versões do filme: a original (com legendas), a dublada em São Paulo e a dublada no Rio de Janeiro. E para cada uma delas há um terrível abismo de diferenças e similaridades que as separa. Gostei de muita coisa e detestei várias, a começar da interpretação de cada personagem. Mas além disso, muitos nomes e frases foram alterados, o que causou revolta nos fãs da saga.

Wendel Bezerra (São Paulo) e Reinaldo Buzzoni (Rio de Janeiro), foram os responsáveis por dar a voz a Edward Cullen (Robert Pattinson)

A primeira vez que o filme foi exibido no Brasil pela Globo foi em 29 de dezembro de 2010. De cara, as redes sociais como Twitter e Facebook lotaram de postagens com críticas sobre a nova dublagem. Muitos declararam que os nomes foram aportuguesados “‘Edward’ teriam se transformado em ‘Eduardo’!”, entre outros termos que foram alterados. Sem contar que o característico ‘chiado’ carioca foi motivo de chacota por conta disso. E o filme, cerca de um ano depois, foi reprisado pela emissora, nesta quarta-feira (14).

Como eu disse, eu assisti às três versões do filme, então posso opinar agora a respeito. Na dublagem carioca, não ouvi o personagem Robert Pattinson se apresentando “Oi, eu sou Eduardo Cullen”. Foi apenas uma diferença na pronúncia, feita por Buzzoni. Ao invés de falar “Édward”, o dublador falou “EduÁrd”, com ênfase no “A” tônico. Mas foi somente uma vez. No restante do filme, o nome foi ‘Edward’ mesmo.

Vamos considerar o seguinte: a dublagem é a versão de uma obra audiovisual em idioma local, no nosso caso, o português. Ou seja, são adptados textos, nomes, frases e outras idéias para que fique compreensível aos falantes do idioma onde a obra é exibida. Assim, é natural que hajam essas falhas nas pronúncias de nomes.

Vocês acham que quando uma produção brasileira, por exemplo, é exibida nos Estados unidos, ao ser dublada, os nomes saem iguaizinhos ao original? Coisa nenhuma! Maria, quando não se torna “Mary”, é pronunciada como “Meruía”. O mesmo acontece com o brasileiro Antônio, que para os gringos se transforma em “Anthony”.

Só para ilustrar, nos gibis da Turma da Mônica, isso fica bem latente. Nos EUA, Mônica é Monic; Magali é Maggie; Cebolinha é Jimmy Five e Cascão é Smudge. Percebem que, os norte-americanos, por uma questão cultural, adaptaram o nome dos personagens? Então, por que razão, Edward não poderia ser “Eduardo”? É claro, ficaria estranho. Mas toda essa neura foi desnecessária, uma vez que houve apenas uma forma diferente na pronúncia do nome. E só.

“Esse gritinho não colou!”

Luciana Baroli e Flávia Saddy emprestaram sua voz a Bella Swan (Kristen Stewart), respectivamente, nas versões dubladas em São Paulo e no Rio de Janeiro

No quesito interpretação, tanto Wendel quanto o Buzzoni fizeram bem, embora eu prefira a versão paulista. Wendel (que também faz o “Goku” de Dragon Ball Z e o Bob Esponja) conseguiu expressar bem os momentos fortes do personagem, principalmente na cena em que Edward e Bella estão na floresta, quando o rapaz diz que é ‘assassino’ e tal. Reinaldo Buzzoni fez um excelente trabalho, mas alguns pontos do filme não ficaram bem.

O mesmo acontece com a Bella Swan. Amo o trabalho da Flávia Saddy, acho que ela é uma excelente profissional. Porém, algumas falas da personagem de Kristen Stewart não ficaram boas, principalmente na interpretação. Isso ficou claro na parte em que Bella e Edward forjam uma ‘briga’ para que a moça fuja de casa e daí ela chega e fala ao pai que vai embora. Faltou emoção, algo que a Luciana Baroli fez muito bem.

Outro dublador que não se encaixou muito foi o Ettore Zuim, emprestando a voz ao James (Cam Gigandet). Achei que a voz ficou muito pesada e muito ‘adulta’ para o jovem vampiro do Mal. Minha opinião é que o Peterson Adriano (o Clark Kent, de “Smallville”) se encaixaria melhor no personagem.

What?

Muitos fãs estavam 'presos' ao texto dos livros de Stephenie Meyers e por isso estranham a diferença em muitos diálogos dublados do filme

Não vamos entrar no mérito da inserção de gírias e outras frases que diferem do original, pois isso é uma coisa bem complexa. Primeiro, em relação entre frases no original e na versão dublada, há o quesito ‘sincronismo’. Vou dar um exemplo bem prático.

Se no filme, em inglês, alguém diz “What do you think you’re doing?”, a não ser que o personagem sofra de um derrame, fica complicado traduzir, ao pé da letra, por “O que você pensa que está fazendo?”. Por que os americanos falam bastante rápido e assim, o sincronismo fica difícil. Por isso, geralmente, na versão brasileira, essa mesma frase é adaptada para “Como é?” ou “Como é que é?”, bem abrasileirada.

O problema, no caso de Crepúsculo, muitos fãs estão presos ao texto dos livros. Assim, na cabecinha deles, os diálogos têm que sair nos filmes do jeitinho que Stephenie Meyers os concebeu. Não se dão conta que texto literário é diferente do texto para cinema.

E outra coisa, na diferença do texto da dublagem paulista e da carioca, ocorre outra situação. Os dubladores se baseiam no texto original, que no caso de Crepúsculo, é em idioma inglês (óbvio!). Assim, quando Buzzoni, Flávia Saddy e companhia foram dublar, se basearam no texto em inglês, e não no que os colegas de São Paulo fizeram. Entendem? Por isso a diferença em muitos diálogos. Eles adaptaram muitas coisas na forma que acharam conveniente.

 

Por fim…

Tanto a dublagem paulista, quanto a carioca de Crepúsculo, ficaram boas. Como eu disse no início, não dá para agradar todo mundo. É claro que houveram uma infinidade de diferenças em cada uma das versões, mas nada que comprometa o brilhante trabalho dos atores envolvidos.

Dublador, em ação: "Deixem os caras trabalharem em paz, ô!"

Confesso que sou fã da dublagem carioca, principalmente por conta dos desenhos e de outras produções em que a interpretação e adaptação fica mais aproximada da brasileira. Mas, no caso de Crepúsculo, curti mais a versão paulista, por conta da interpretação e da maneira como os dubladores conduziram os personagens. Nota dez para o Wendel, para a Luciana Baroli e para os demais envolvidos.

Agora, se mesmo assim, muita gente ainda torce pelo fim da dublagem, queridos….façam bom uso do controle remoto ou da tecla SAP e use todos os seus conhecimentos em inglês. Deixem os amantes do idioma pátrio e os que necessitam entender o filme (e não apenas “ler”) curtirem as versões dubladas! Um abraço a todos!!!!!

Posted on Dezembro 15, 2011, in Análise de dublagens, Elenco de Dublagem, Redublagem and tagged , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 6 comentários.

  1. Parabens pelo artigo. excelente porem vale o comentário que com relação as midias que foram contratadas existe um grande equivoco. pois a propria chamada da rede globo foi feita com a versão paulista…no começo do ano de 2010. alem do mais o valor que cada dublador recebe é tabelado tanto no rio como em são paulo dai não teria diferença em faze-los com os atores da primeira versão e até mesmo se o preço do estudio do rio fosse melhor os principais poderiam ter sido mantidos e eles gravariam as suas partes aqui em são paulo como é feito por varios estudios entre são paulo e rio, o que realmente aconteceu foi mais uma vez a toda poderosa rede globo tomando conta de mais um universo sem respeitar nimguem. mais um detalhe o filme titanic que foi dublado ai no rio na primeira versão agora vai ser lançado em 3D porem com a dublagem de são paulo. o que tb é errado em respeito aos fãs.

  2. Li tudinho e achei muito interessante toda a postagem.
    *__*

  3. concordo com vc mais a dublagem paulista e 10 vez melhor do que a carioca nao e disrepeitando os dubladores cariocas mais a dublagem paulista e show mesmo que tenhao algumas falhos e dez mil vezes melhor que a carioca mais a globo ja tinha feito isso com o seriado glee que tinha uma boa dublagem e eles modificaram toda ela e uma pena

    • Cara, que dificuldade em entender o que você escreveu! Não tem um acento, vírgula, ponto, e ainda tem palavras escritas de forma errada – “tenhão” foi terrível. Mas sabe o que é pior? Seu argumento. A dublagem paulista é melhor porque é show. Entendi!

  4. Excelente matéria. Aprecio o trabalho de dublagem tanto dos paulistas quanto dos estúdios do Rio. Às vezes não é questão duma ser melhor do que a outra por ser de estados diferentes. O que diferencia se uma dublagem vai ser melhor do que a outra é justamente o trabalho do Diretor de Dublagem que vai escolher as vozes e vai dirigir a equipe no que tange tange a entonação, emoção, etc.

  5. Gostei muito do artigo. Porém sou da opinião que em time que esta ganhando não se mexe, por isso quando vejo um ator que “já tem” o seu dublador que deu certo e todo mundo gosta e ai mudam por outro (que tbm é um ótimo dublador) parece, ao meu ver, que não se encaixa fica estranho. Como o caso do George Clooney. Acho a dublagem dele maravilhosa, porém no filme 12 homens e outro segredo eu odiei a dublagem, não que o dublador fosse ruim, mas sim por que eu me acosumei com a “voz um” e não queria uma “nova voz” para ele.

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