Conheça toda a versatilidade e criatividade de Gutemberg Barros

Gutemberg Barros é ator, dublador e radialista há 26 anos, e também atua como locutor comercial da Rede Globo

Por Fábio Cavalcante

A entrevista não custou “noventa e sete dólares e dezessete centavos”, mas foi de extremo valor. Claro, no padrão Julius Rock, personagem de Terry Crews na série “Todo mundo odeia o Chris”. O que pouca gente sabe é que, no Brasil, o famoso pão-duro que tem dois empregos recebe a voz do carioca Gutemberg Barros, que nesta edição, abrilhanta a revista Sala de Cinema (março/abril) e o blog Nossa Versão.

“Guto”, como é chamado pelos amigos, tem 26 anos de profissão. É ator-dublador, radialista e locutor do departamento comercial da Rede Globo de Televisão. Duvida? É só lembrar-se das ‘assinaturas’ dos patrocinadores (“Jornal da Globo. Oferecimento…”), função que divide com o também dublador Ricardo Juarez (o eterno “Jonny Bravo”).

No início da carreira de dublador, conta ele, suas falas eram bem monossilábicas (“Oi!”, “Olá!”, etc.). Mas seu primeiro papel de destaque foi em “O jovem Indiana Jones”, série exibida pela Globo nos idos de 90, em que Gutemberg dublou o capitão De Gaulle. De lá pra cá, vieram uma série de personagens, sendo que atualmente, podemos destacar dois em especial.

Um deles, claro, é o bom e velho Julius Rock, de Todo mundo odeia o Chris. Gutemberg contou que este foi um dos melhores trabalhos de sua carreira, principalmente devido a projeção e o grande sucesso que a série possui no Brasil.

“Teve alguém que conhece ‘o dublador do Julius’ e que fez esse tipo de comparação com um monólogo que deixei rolar no Youtube. Brincavam dizendo ‘Isso te custou 50 centavos’. Eu me divirto até”, disse.

Julius Rock (Terry Crews), da série Todo Mundo odeia o Chris, recebe no Brasil a voz de Gutemberg

Outro personagem famoso foi o Sylar (Zachary Quinto), o sociopata relojoeiro que se tornou conhecido por arrancar cérebros, da série Heroes. Gutemberg conseguiu após um rigoroso teste de voz. Mas o dublador afirma que para cada personagem que ele faz, é dada uma imposição diferenciada na voz, para que os demais personagens dublados por ele não tenham a ‘mesma voz’.

“Eu tenho uma maneira peculiar de dublar. Se você observar bem, minha voz não é a mesma quando comparada. E nem a deixo ‘caricata’, pois mudo sempre um personagem que está bem falado. O Julius, por exemplo. Compare a voz dele com a do Sylar. Há uma grande diferença”.

Na entrevista, logo abaixo, Gutemberg fala sobre sua trajetória como dublador e radialista, além de comentar sobre a categoria que, segundo ele, vem sendo ‘massacrada’ por conta de clientes e patrões inescrupulosos. “O dubladorque tem outra atividade, que se agarre a ela. Antes as coisas eram bem sólidas e tínhamos segurança. Hoje é tudo bem diferente. Infelizmente.”

Outros trabalhos

Gutemberg dublou o carro K.I.T.T., da série A Nova Super Máquina

Gutemberg já emprestou sua voz aos atores Arnold Schwarzenegger, Bruce Greenwood, David James Elliott, Dennis Quaid, Gabriel Byrne, Harrison Ford, Kelsey Gramer, Mark Wahlberg, Patrick Swayze, Peter Berg, Thomas Haden Church e William Shatner.

Outro trabalho de destaque do dublador foi o remake da série “A Super Máquina” (Knight Rider), exibido pelo SBT, onde Gutemberg dublou K.I.T.T., o carro falante que tinha uma série de “apetrechos” sensacionais.

Além disso, temos: Trevor Goodchild (Marton Csokas), em Aeon Flux; Frank Rossitano (Judah Friedlander), em 30 Rock;  Mr Big (Chris Noth), em Sex and City;  Wilson, em “Meu amigo é um macaco”; Marcus R. Dixon (Carl Lumbly), em Alias – Codinome Perigo.


Curiosidade

 

Alguém se lembra da narração engraçadíssima do programa “Vídeos Incríveis”, que mostrava acidentes, catástrofes e outras situações, geralmente filmadas por cinegrafistas amadores? Pois é. Gutemberg Barros também deu o ar de sua graça nisso também, como o narrador.

“Ria muito naquela época! Eu tinha ‘carta branca’ para mudar o texto e adaptar. Aos poucos, a própria tradução embarcava na minha e já vinha com as ‘tiradas engraçadas’. Eu adorava! Até quando não estava bem humorado, que é coisa rara, eu acabava cedendo e me divertindo com o trabalho”.

Vídeos Incríveis (Amazing Videos): Gutemberg narrou (de forma hilária) boa parte dos episódios

***

Nossa Versão – Para começarmos, já são quanto tempo de profissão?

Gutemberg Barros – São 26 anos, contando a época dos “obas!” e “olás!” na dublagem e o mesmo tempo como radialista.

N.V – Como foi seu início de carreira? Você já começou na dublagem ou chegou a fazer teatro, novelas e outros trabalhos de ator?

Gutemberg – Comecei no teatro. Pequenos papéis. Era motivado pelo colégio, na época, sem nenhuma pretensão. Fazia porque gostava. Depois veio o rádio. Fazia gravação de locução desde os sete anos de idade. Brincava. Perdi uma fita K7, onde tinha a minha voz fininha, bem no agudo, brincando (risos). Fiz publicidade na ETEC. Através dos cursos livres de locução, eu acabei encontrando uma pessoa da dublagem que disse que a minha voz era perfeita para os grandes trabalhos. Me interessei e corri a atrás. O dublador se chamava André Filho (dublador do Silvester Stallone, na década de 80 e 90). Ele fazia um programa na rádio Imprensa FM e participava de programas esportivos. Levava o time de futebol que montava nas competições e ia aos estúdios fazer divulgação. Num desses dias, eu estava trabalhando e ele me ouviu. Marcamos uma apresentação na antiga VTI e fui apresentado aos diretores, na ocasião. Exigiram o DRT de Ator e eu disse que tinha. Eles questionaram: “Como assim, se você é Radialista?”. “Eu sou ator por paixão”, respondi. Nem sabia que os atores dublavam (risos). Então, o caminho foi suado, porém prazeroso. Me aproveitaram e pude dividir com o rádio, essa incrível profissão. Fiz alguns trabalhos em novelas, pequenos papéis. Mas tudo isso faz parte da profissão do ator, como TV, cinema, teatro, dublagem, comerciais e etc. Muitos atores, nem sabem que a dublagem existe. Sabem que existe na TV, mas não buscam trabalhar dentro dessa “extensão” da profissão. Eu sou exemplo disso, como contei anteriormente. Só conheci a profissão de dublagem por acaso, dentro do Rádio.

N.V – Você disse que fez muitos ‘ois’, ‘obas’ e afins, no início da carreira em dublagem. E qual foi seu primeiro papel de destaque?

Gutemberg – Foi uma participação muito legal no seriado “O Jovem Indiana Jones”. Eu dublei o capitão De Gaule. Direção do Waldir Santana, na VTI. Não me lembro do ano. Na época, os dubladores dividiam a bancada, lado a lado. Era muito legal e louco. Um errava, todos repetiam. Então a busca pelo acerto era constante. Portanto, os atores que erravam muito, não “vingavam” na profissão. Pois recebemos por hora e atrasos são inadmissíveis (risos).

N.V – Agora, uma curiosidade que poucos sabem: você narrou também o programa “Os Vídeos mais incríveis do mundo”, não é mesmo?

Gutemberg – Sim! Adorava! Ria muito naquela época! Eu tinha “carta branca” para mudar o texto e adaptar. Aos poucos, a própria tradução embarcava na minha e já vinha com as “tiradas engraçadas”. Eu adorava! Até quando não estava bem humorado, que é coisa rara, eu acabava cedendo e me divertindo com o trabalho.

N.V – Falando em adaptação, na dublagem você já foi censurado quando teve que alterar um texto, deixando-o mais rico e menos ‘americanizado’, por exemplo?

Gutemberg – Sim. Muitas vezes, o entendimento da direção não acompanha o seu. No caso, sou profissional e acato. Mas isso é coisa rara. Eu nem percebo mais. Dou “N” sugestões e acabam optando por uma delas.

N.V – Vamos fala sobre alguns de seus principais ‘bonecos’. Começando pelo Sylar (Zachary Quinto), de Heroes. Como foi o processo para você conseguir o papel?

O medonho Sylar (Zachary Quinto), de Heroes, dublado por Gutemberg na Audiocop (RJ)

Gutemberg – O papel do Sylar foi conquistado através de um teste. Eu fiz o teste, como faço qualquer outro. Ganhei, curti e fiz empolgado como qualquer outro. Claro que, a projeção de cada papel, independe se você gosta ou não da personagem, digamos assim. Não tenho predileção por um ou outro. Gosto de todos, mas não quero me “rotular” por um ou por outro. Eu tenho uma maneira peculiar de dublar. Se você observar bem, minha voz não é a mesma quando comparada. E nem a deixo ‘caricata’, pois mudo sempre um personagem que está bem falado. O Julius, de “todo Mundo Odeia o Chris”, por exemplo. Compare a voz dele com o Sylar. E não se trata de animação. É filme mesmo! Ou seja, se você encontrar um dublador que muda a voz em filme e não identifica quem é, você tem um ‘camaleão’ na profissão. Desenho é mais fácil mudar. Todos conseguem. Ou quase todos (risos).

N.V – Verdade! Tem o ‘lance’ de você seguir a inflexão do ator original. Mas isso causa ojeriza a muitos ‘fãs’, por mudar o original, ou para melhor ou para pior. Como você lida com isso?

Gutemberg – Eu não me importo em mudar. Se na hora eu achar que posso melhorar, eu mudo! Isso se chama “bom senso”. O ator de dublagem pode melhorar o papel. Ele tem esse poder. Da mesma forma que pode “matar” uma personagem e estragar tudo. É uma “faca de dois gumes”. Mas o diretor [de dublagem] é o principal responsável se a coisa der errado. A orientação parte dele. É por isso que eles ganham “bilhões de dólares” (risos).

N.V – Você poderia citar um caso em que uma ‘expressão’ ou uma ideia tipicamente ‘americana’, por exemplo, teve que ser ‘abrasileirada’, para melhor compreensão?

Gutemberg – Olha, não lembro bem da expressão em inglês que eles utilizaram. Mas posso dizer que a seguinte situação “Já era!” foi adaptada para “Sujou!”. E pela idade das personagens, coube muito bem (risos).

N.V – Em relação ao Sr Julius (Todo mundo Odeia o Chris), houve alguma situação engraçada em relação ao personagem, por exemplo, você ser reconhecido na rua ou algo parecido?

Gutemberg – Não, até porque lá não é a minha voz normal. Então nunca fizeram essa comparação. Teve alguém que conhece “o dublador do Julius” e que fez esse tipo de comparação com um monólogo que deixei rolar no Youtube. Brincavam dizendo “Isso te custou 50 centavos” (risos). Eu me divirto até (risos). Mas comparar a minha voz com a de algum personagem, nunca aconteceu. Já me abordaram dizendo que conheciam a minha voz de algum lugar. E eu sempre dizia um personagem e acabavam dizendo: “É mesmo! Me dá um autógrafo?”. Engraçado isso.

N.V – Mudando drasticamente de viés, você tem algum tipo de religião? 

Gutemberg – Sou católico, mas sou cabalista, que não se trata exatamente de uma religião.

N.V – O que queremos saber é o seguinte: qual o limite entre o profissionalismo e a ideologia do profissional? Por exemplo, você já recusou um papel pelo fato de ele representar uma apologia a algum pensamento ou ideologia contrários ao seu?

Gutemberg – Não tenho esse direito, já que estou dublando uma obra. Posso dar o real ponto de vista sobre o trabalho daqueles que fazem alguma coisa contrária àquilo que acredito. Mas não posso vetar o trabalho profissional por conta desses pensamentos. Não permito que isso afete minhas atividades.

N.V – Sabemos que os dubladores, ao menos boa parte deles, não são funcionários de um único estúdio. Então, como é seu dia a dia? Em quantos estúdios trabalha e como você concilia todos os trabalhos, incluindo os executados nas rádios e na rede Globo?

Gutemberg – Bom, não sou contratado por nenhuma empresa de dublagem. A profissão foi massacrada. Até os direitos normais de qualquer pessoa como férias, 13º salário, fundo de garantia e etc., eles destruíram. Eu posso fazer meus horários de dublagem, de acordo com a minha disponibilidade. A locução tem horário fixo, portanto, não deixo a dublagem afetar esses horários.

N.V – Você falou em ‘massacre da profissão’. Mas a categoria não se une para resolver isso? Não existe um sindicato para tratar desse tipo de problema?

Gutemberg – Existe! E com o sindicato e com as pessoas unidas, ainda assim as coisas estão destruídas. Vai entender… (risos)

N.V – Então, a dublagem seria uma atividade “free lancer” para a maioria?

Gutemberg – Posso dizer que, quem tem outra atividade, que se agarre a ela. Antes as coisas eram bem sólidas e tínhamos segurança. Hoje é tudo bem diferente. Infelizmente.

 

N.V – O que, por Deus do Céu, teria causado toda essa mazela?

Gutemberg – Olha, se eu soubesse a resposta para essa pergunta, teria uma boa estratégia para divulgar. Queria que as pessoas buscassem mais. Há quem diga que nunca mais teremos os benefícios de antigamente. O ideal para nós seria: trabalho, satisfação, respeito e profissionalismo.

N.V – Como você é o primeiro dublador a ser entrevistado para a coluna, gostaria que você desse suas recomendações a quem tenha interesse em ingressar na dublagem!

Gutemberg – Em primeiro lugar, as pessoas devem buscar a extensão da sua carreira de Ator em vários segmentos. Não devem buscar jogar uma “ancora” e esperar que aquilo vá ser o futuro delas. A decepção pode ser grande e é melhor estar feliz com um “leque de opções” aberto, do que uma âncora teimosa na dublagem. O importante é ser feliz!

Posted on Fevereiro 29, 2012, in Entrevista and tagged , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

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